#15CENAS – Click
ㅤClick.
ㅤTomou um gole de seu café, deixando a xícara de lado ao perceber que era observado. Já havia se acostumado com todo o procedimento, mas os grandes olhos castanhos que ela possuía ainda lhe deixavam um pouco desconfortável.
ㅤ- Bom dia, Aeri. Como se sente?
ㅤ- Bem, doutor.
ㅤObservou a figura infantil parada de pé no meio da sala por alguns instantes, enquanto caminhava até a cadeira onde havia deixado sua prancheta no dia anterior. Notou que a garota o seguia com o olhar, tão monótono quanto suas palavras, fitando-o fixamente mesmo que não demonstrasse qualquer interesse sobre suas ações.
ㅤ- Algo de errado?
ㅤ- Não, doutor.
ㅤ- Tem certeza? - Foi mais incisivo dessa vez, forçando a entonação de sua voz. Algo lhe parecia fora do normal, ainda que não soubesse do que se tratava.
ㅤ- Sim, doutor.
ㅤNovamente o tom monótono. Sabendo que não teria uma resposta diferente, decidiu continuar com o procedimento. Ela o contaria se algo estivesse errado quando lhe fizesse a pergunta correta, ou talvez quando sentisse a necessidade. Nunca sabia ao certo como aquilo funcionava de verdade.
Sentou-se, voltando alguma atenção à prancheta em suas mãos. Virou algumas páginas procurando por suas ultimas anotações, quando notou suas planilhas fora de ordem.
ㅤ- Por que mexeu na prancheta?
ㅤ- Não mexi, doutor.
ㅤ- Eu sei que mexeu, Aeri. Os papeis estão todos fora de ordem. Por que fez isso?
ㅤ- Não fiz nada.
ㅤO ar saindo de sua boca em uma bufada fez um efeito sonoro alto, que pareceu incomodar a garota. Ela demonstrava uma leve irritação, como se estivesse ofendida com as acusações contra ela. Talvez estivesse sendo um pouco paranoico, afinal, Aeri não deveria mexer naquilo que não lhe pertencia ou no que não deveria. Mas se não fosse ela, quem mais seria?
ㅤHavia sido um erro seu por não cumprir o procedimento padrão, deixando a prancheta onde não deveria, mas além de Aeri, o único que entrava naquele cômodo era a si mesmo. Sabia que não colocaria suas anotações fora de ordem, sua obsessão por organização não deixaria, mas por que ela mentiria?
ㅤ- Aeri, você confia em mim?
ㅤ- Sim, doutor.
ㅤ- Então me diga o que houve. Não vou brigar com você, só gostaria de saber por que mexeu nas minhas coisas.
ㅤ- Não mexi, doutor.
ㅤA constância do tom monótono da garota o irritou ao ponto de fechar os olhos e respirar fundo, tentando se recompor. Às vezes se tornava impossível lidar com Aeri.
ㅤ- Certo, Aer-
ㅤInterrompeu o discurso que iria começar, confuso e surpreso com a repentina aproximação da garota. Ela havia andado alguns metros em questão de segundos, parando de pé há dois ou três passos de onde estava sentado. A sensação de incomodo que seus olhos causavam parecia infinitamente maior com aquela proximidade.
ㅤO silêncio que se mantinha era tão grande e opressor que pode ouvir com clareza a saliva que engoliu escorregar por sua garganta, na estranha tentativa de tirar seu próprio corpo daquele desconforto criado pela invasão de seu espaço pessoal. Era sufocante.
ㅤ- O que está fazendo?
ㅤA oscilação em seu tom de voz pareceu agradar Aeri, que tombou a cabeça de leve, esboçando um sorriso. Ela estendeu a mão, agarrando a mão dele com força. Seu toque era gelado e quase ameaçador, com uma força que não deveria existir em uma garota que não aparentava ter mais do que dez anos.
ㅤ- Eu li o que não gosta sobre mim e já melhorei, papai bobo.
ㅤ- Do que você está falando? Aeri, pare com isso – tentou puxar a mão dos domínios da garota, sem qualquer efeito. - Me solte.
ㅤAeri nunca havia apresentado nenhum sinal de comportamento hostil ou nocivo, mesmo com suas repentinas mudanças de humor e tendência à discordar, o que lhe dava confiança em confrontá-la.
ㅤFoi perceber o erro que havia cometido quando já era tarde demais.
ㅤ- Papai não vai sair, papai vai ficar comigo.
ㅤA garota bateu o pé contra o chão, irritada, deixando uma marca contra o concreto pintado. Sem mais delongas, Aeri começou a caminhar em direção a área onde ficavam seus brinquedos, puxando-o consigo.
ㅤ- Aeri, você está me machucando. Me solte, agora.
ㅤ- Não!
ㅤA garota manteve o ritmo de sua caminhada, arrastando o doutor sem demonstrar qualquer outra reação ao seu debater na tentativa de se soltar. Quando chegou próximo à seus brinquedos, finalmente parou de puxá-lo e o encarou por alguns instantes, antes de estender a mão até uma das pernas dele.
ㅤ- Papai tem que aprender a se comportar, até lá não vai precisar disso.
ㅤNenhuma de suas tentativas de se soltar foi o suficiente para impedir que a mão da garota se fechasse com força contra sua perna e girasse em um ângulo estranho. Ouviu o estalar alto antes que fosse capaz de sentir qualquer dor, soltando um gemido alto e excruciante.
ㅤ- Papai não vai precisar mais gravar nada também.
ㅤAeri levou a mão até o bolso do jaleco que usava, manchando o tecido branco de vermelho enquanto buscava o pequeno gravador.
ㅤCom a visão embaçada, beirando a inconsciência, foi capaz de ver a garota aumentar o sorriso que carregava enquanto o arrastava até uma das cadeirinhas ajeitadas próxima à uma pequena mesa, decorada com um conjunto de chá de brinquedo, e apertava um dos botões no gravador.
ㅤ... Click.
leilok a.
(culpem o dayan)
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